Maçonaria X Espiritismo, para Aprendizes, Companheiros e Mestres (Incorre em culpa a pessoa que estuda os defeitos alheios?)

 


Incorre em culpa a pessoa que estuda os defeitos alheios?

 Resp.: “Se for para os criticar e divulgar, incorrerá em grande culpa, porque será faltar com a caridade. Mas, se o fizer para daí tirar algum proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ter alguma utilidade. Não se deve esquecer, porém, de que a indulgência para com os defeitos alheios é uma das virtudes que fazem parte da caridade. Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se não poderão dizer o mesmo a vosso respeito. Tratai, pois, de possuir as qualidades opostas aos defeitos que criticais nos semelhantes; esse é o meio de vos tornardes superiores a eles. Se os censurais por serem avarentos, sede generosos; por serem orgulhosos, sedes humildes e modestos; por serem duros, sede brandos; por agirem com mesquinhez, sede grande em todas as vossas ações. Em suma, procedei de forma a que não vos possam ser aplicadas estas palavras de jesus: Vedes o orgulho no olho do vizinho e não enxergais uma trave no vosso.”

 

Questão 903 de o Livro dos Espíritos – Allan Kardec

A Igualdade Conceitual entre a Resposta à Questão 903 de O Livro dos Espíritos e os Ensinamentos do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria: Uma Análise de Convergências Morais e Espirituais

No âmbito das tradições espirituais e filosóficas do século XIX, a resposta à Questão 903 de O Livro dos Espíritos, codificado por Allan Kardec em 1857, emerge como um lócus (lugar) privilegiado para a compreensão da ética espírita. Nela, os espíritos superiores afirmam: "Incorre em grande culpa, se o fizer para os criticar e divulgar, porque será faltar com a caridade. Mas, se o fizer para se tornarem úteis os seus exemplos, não só não incorre em culpa, como pratica uma ação louvável". Esse ensinamento, inserido no Capítulo XII da Parte Terceira ("Das Leis Morais"), sob a rubrica "As Virtudes e os Vícios", delineia uma moralidade ancorada na caridade como soberana das virtudes, onde o exame dos defeitos alheios transcende a mera observação para se converter em instrumento de elevação espiritual coletiva e individual.

Paralelamente, o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), sistematizado em seus trinta e três graus simbólicos, filosóficos e administrativos, com raízes no Iluminismo maçônico e consolidação por Albert Pike[1] em Moral e Dogma (1871), propõe uma doutrina iniciática que exalta idênticos princípios: a fraternidade universal como expressão da caridade divina, o autoexame moral como via para o polimento da "pedra bruta" e a responsabilidade ética perante o Grande Arquiteto do Universo (G.A.D.U.). Nos graus iniciais, como o de Aprendiz e Companheiro, e nos filosóficos, a exemplo do 18º (Cavaleiro Rosa-Cruz), o silêncio sobre as faltas fraternas e o uso reflexivo delas para o progresso interior configuram-se como pilares inabaláveis, revelando uma identidade profunda com o espírito kardecista.

Essa igualdade conceitual manifesta-se, primeiramente, na concepção compartilhada da caridade como lei suprema da ordem cósmica, princípio ordenador que subordina toda ação humana à harmonia universal. Na resposta espírita, a crítica difamatória constitui falta grave por violar a caridade, virtude que Kardec eleva a "rainha das virtudes morais" (Questão 893), integrando-a à lei de causa e efeito – onde toda ação reverbera no destino espiritual do agente. Igualmente, no REAA, a caridade fraterna, simbolizada pelo Compasso e pelo Esquadro, impõe o dever de velar pelas imperfeições alheias sem exposição, conforme o juramento do Mestre Maçom: preservar o silêncio virtuoso perante as fraquezas dos irmãos, sob pena de perturbar a harmonia do Templo. Essa convergência não é periférica, mas ontológica: ambas as tradições postulam uma intervenção divina indireta, mediada pela lei imutável de justiça, onde o exame moral dos vícios não é ato isolado, mas inserido em uma cadeia causal que promove a evolução do ser. Pike, ao interpretar os graus superiores, como o 32º (Soberano Grande Inspetor Geral), descreve essa lei como equilíbrio kármico divino, análogo à retribuição espírita, em que o espírita – ou o iniciado – colhe os frutos de suas intenções, elevando-se pela prática reflexiva e compassiva.

Aprofundando essa semelhança, observa-se a unidade na visão da evolução moral e espiritual como trajeto inexorável rumo à perfeição, guiado pela responsabilidade individual dentro de uma ordem cósmica providencial. No Espiritismo, o estudo útil dos defeitos alheios torna-se "ação louvável" por instrumentalizar o progresso, alinhando o indivíduo à lei progressiva das existências sucessivas, onde cada encarnação refina o espírito pela observação e correção interna. Essa dinâmica ressoa integralmente com o percurso iniciático do REAA, cujos graus ascendentes representam estágios de depuração moral: do Aprendiz, que aprende a vigiar suas próprias falhas para lapidar a pedra bruta, ao Cavaleiro Kadosh (30º grau), que transcende o egoísmo pela caridade universal, percebendo nos vícios alheios lições para a regeneração coletiva. Ambas as doutrinas concebem o cosmos como teia ordenada pelo G.A.D.U. ou pela Divindade Suprema, onde a responsabilidade individual – discernir entre crítica estéril e exame edificante – insere-se na providência divina, fomentando a ascese[2] ética. Essa perspectiva teleológica, comum às duas tradições, enfatiza a perfectibilidade humana não como dom arbitrário, mas como dever imposto pela lei de causa e efeito, que recompensa a caridade reflexiva com elevação espiritual, configurando uma ética teleonômica[3] em que o fim moral reside na harmonia cósmica.

Nuances adicionais enriquecem essa identidade teórica, particularmente na ênfase à interioridade como locus da transformação espiritual. A resposta à Questão 903 privilegia o "tornarem úteis os seus exemplos", convertendo o exame externo em autoaperfeiçoamento, ecoando a máxima evangélica internalizada no Espiritismo: "Tira primeiro a trave do teu olho" (Mateus 7:5), elevada a princípio universal de responsabilidade. No REAA, essa interioridade simboliza-se pela Câmara de Reflexão do Aprendiz, espaço ritual onde o neófito confronta seus vícios para transcendê-los, e pelo Rosa-Cruz, que integra gnose e caridade em uma espiritualidade contemplativa. Ambas as fontes, assim, convergem na rejeição do juízo farisaico em prol de uma moral fenomenológica, onde a observação dos defeitos alheios serve à purificação do observador, inserida na ordem cósmica que premia a vigilância ética com progresso espiritual. Essa profundidade filosófica – comum ao racionalismo espírita e ao esoterismo maçônico – revela uma cosmovisão unitária: o ser humano, imerso em lei divina de equilíbrio, evolui pela caridade ativa, transformando potenciais quedas em degraus ascensionais.

Em síntese, a resposta à Questão 903 e os ensinamentos do REAA exibem uma igualdade conceitual profunda, manifestada na caridade como lei cósmica, na evolução moral pela responsabilidade individual, na lei de causa e efeito como providência divina e na ordem universal que ordena o exame reflexivo dos vícios ao progresso espiritual. Essa convergência teórica, longe de ser fortuita, atesta a perenidade de princípios éticos spirituais que transcendem contextos históricos, convidando a uma hermenêutica unificada das tradições do século XIX.

Resumindo

  • A caridade emerge como virtude soberana em ambas as doutrinas, subordinando o exame moral à harmonia cósmica.
  • A lei de causa e efeito e a evolução espiritual configuram-se como mecanismos idênticos de perfectibilidade humana.
  • A responsabilidade individual integra-se à ordem providencial, transformando vícios alheios em lições interiores.
  • Essa igualdade ontológica reforça uma ética teleonômica comum, ancorada na interioridade reflexiva.

[1] Albert Pike (1809–1891):Advogado, escritor e general confederado, foi uma das figuras mais influentes da Maçonaria nos EUA, famoso por reestruturar o REAA e escrever o livro "Morals and Dogma".

 [2] Ascese é um conjunto de práticas, disciplinas e renúncias aos prazeres materiais e carnais, evoluindo o aperfeiçoamento espiritual, moral ou ético. Originada do grego áskesis ("exercício"), refere-se ao autodomínio e treinamento da vontade para alcançar a perfeição, virtude ou objetivos elevados é também aplicada à disciplina pessoal. 

[3] O adjetivo teleonômica (feminino de teleonômico) refere-se a algo relativo à teleonomia.

A teleonomia é um conceito utilizado principalmente na biologia evolutiva, na cibernética e na filosofia da ciência para descrever sistemas — especialmente os seres vivos — que parecem ter um propósito ou objetivo, mas que não foram criados com uma intenção consciente.

Para entender melhor, é essencial diferenciar dois conceitos:

·  Teleologia: É a ideia de que algo foi criado com um propósito pré-determinado ou planejamento consciente. (Exemplo: Um carro é teleológico, pois foi projetado por engenheiros com o objetivo de transportar pessoas).

·      Teleonomia: É a aparência de propósito gerada por processos naturais e não conscientes, como a seleção natural. (Exemplo: O formato aerodinâmico das asas de um pássaro é teleonômico. O pássaro não foi "projetado", mas a evolução selecionou essas características ao longo de milhões de anos porque elas funcionavam melhor para a sobrevivência).

            Exemplos práticos:

·       Comportamento animal: Quando filhotes de tartaruga nascem e correm imediatamente em direção ao mar, isso é um comportamento teleonômico. Eles não racionalizam o objetivo ("preciso ir para a água para não ser comido"), mas estão seguindo um programa genético que foi moldado pela evolução porque aumenta as chances de sobrevivência.

·       Estruturas corporais: O coração bater para bombear sangue é uma função teleonômica. O coração existe e funciona dessa forma porque os organismos que desenvolveram esse mecanismo sobreviveram e deixaram descendentes.

Em resumo, dizer que uma característica biológica é teleonômica é uma forma científica de admitir que ela serve a uma função vital (como se tivesse um propósito), mas deixando claro que isso é resultado de um programa natural (genética/evolução), e não de um planejamento inteligente.

 Redação com pesquisa de Jorge Luiz M Muniz

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