MEDITANDO A NATUREZA HUMANA

 


MEDITANDO A NATUREZA HUMANA

Júlio Pereira

A priori, faz-se necessário refletirmos sobre esta máxima de Robert Mugabe “Só os pobres são possuídos de demônios. Você nunca verá um rico rolando no chão de uma igreja” ela   faz parte de uma reflexão profunda e de um despertar da consciência, do acordar, da retirada do véu da ignorância, das correntes imaginárias que atormentam o ser humano, o simples ato de acreditar sem questionar, sem refletir. Esta frase nos remete a fazermos uma pausa, a um despertar da consciência e da compreensão do que está por trás dos bastidores, deste teatro que manipula, aliena e escraviza o ser humano diante da sua fé.

             Ao refletirmos sobre as estruturas de poder, da ideia de preceitos de moralidade construída pelos grupos dominantes e a forma como a doutrina da fé é manipulada nos leva a um cenário de reflexão e de um mal-estar psicológico frente aos preceitos reais e escarados de desigualdades, de uma realidade que não queremos ver.  Se nós não pararmos para refletir, repensar a nossa trajetória espiritual, nossas crenças, se não meditarmos e revermos sobre os contrassensos que perduram nas práticas das igrejas de uma forma geral nós permaneceremos no cenário de pessoas manipuladas, de gados, de ovelhas, de animais adestrados a simplesmente aceitar sem refutar.

            Pensar em alguém que tenha um propósito de seriedade diante do seu sacerdócio nas igrejas que se propagam a cada dia de forma cada vez mais célere como verdadeiro mercado do lucro pela fé não é “impossível”, mas tem sido cada vez mais difícil encontrarmos um homem que verdadeiramente tenha o propósito de pregar sem lucrar, de não tornar a sua igreja como um berço empresarial, um CNPJ lucrativo, próspero. 

             Infelizmente, as igrejas se tornaram grandes empresas lucrativas, um ambiente em que a fé passou a ser constituída pelo teatro, o espetáculo da manifestação dos demônios, das figuras míticas que são cada vez mais cultuadas... portanto, se você tirar as figuras demoníacas das igrejas elas fecham as suas portas. Elas se alimentam deste joguinho do bem e do mal, da manifestação de satanás, do palco que é dado ao chamado inimigo. Diante desta máxima, infelizmente o teatro está regulamentado e as pessoas na sua grande maioria sem leitura se deixam levar por esta verdadeira hipnose coletiva, por uma crença sem sentido, por uma fé sem ser racionalizada, tomadas pelo teatro das emoções, da manifestação do capeta, o que não se aplica quando nós buscamos um raciocínio lógico e crítico reflexivo.

 

               Do ponto de vista do teor de caráter essencialmente reflexivo, frente a uma mente pensante e crítica Karl Marx definiu as religiões como “o ópio do povo”, a crença portanto faz parte de um processo de dominação. A religião na sua etimologia diz respeito ao “ligar-se a Deus”, está com Deus, eu sou teísta, creio em Deus, creio no criador, mas não pactuo com o teatro da fé, da alienação, da manipulação, do dogma estabelecido, dos preceitos e normas aplicados muitas vezes de forma rígida por homens que não coadunam com a verdadeira essência do criador.

             Por outro lado, faz-se necessário refletir que a reflexão   e meditação de  que a aflição espiritual, o processo de possível   “perturbação espiritual ” , do indivíduo está “com castas de demônio” ou  “ o processo de possessão” infelizmente fazem parte de uma realidade que precisa ser revelada, que necessita  ser revista pois  são verdadeiros caracteres de descrição  da condição de “pobreza”, ou seja,  revela uma construção simbólica daqueles   que têm pouco  são muitas vezes  marcados como portadores de falhas, de possíveis  pecados ou de influências negativas, enquanto os que têm riqueza são  considerados pessoas verdadeiramente  abençoadas pelo criador, são prósperas, têm fé, acreditam. Infelizmente nos deparamos com a falácia do discurso.

            Infelizmente esse raciocínio se baseia numa possível lógica distorcida das verdadeiras causas da nossa desigualdade social. Portanto, transformar o teor da miséria em consequência de uma condição espiritual e a riqueza em prova de virtude ou aprovação divina é algo que precisamos refletir, acordar. Infelizmente pensar as questões espirituais como forma do não progresso do ser humano financeiramente falando é desviar a atenção das causas estruturais da desigualdade, da exploração.

             Por outro lado, atribuir as dificuldades humanas a fatores imateriais e pessoais é uma situação que merece por parte de nós refletirmos. Ao fazer isso, cria-se um cenário de teor de elevação em que  os  mais abastados estão no topo da vitória e da glória  porque são “melhores” espiritualmente, e os pobres estão na base porque são “carentes” de graça ou de virtude ou até mesmo pelo discurso dos dominadores da fé em que eles dizem, você não prosperou ainda porque tu tens pouca fé, você precisa acreditar mais, seguir o que o Senhor mandou para fazer, portanto, se queres prosperar você precisa dizimar, ser um dizimista fiel. Eis o pulo do gato.... é assim que estas igrejas crescem pela ignorância das pessoas, a falta de leitura.

Autor Júlio Pereira

 


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